Desculpa. Não dá pra mim.
As mulheres cristãs e de direita estão me fazendo sentir vergonha de dizer que sou cristã e de direita. E eu sei que, se eu disser isso em público, serei imediatamente atacada e colocada numa caixa, com nome, sobrenome e rótulo.
Mas não dá pra mim.
Eu estudei a vida inteira em escola pública e conheci a pobreza de perto. Sou neta de nordestino trabalhador. Minha avó era indígena. Meu avô, negro. Então me dói quando vejo gente falando do povo nordestino com desprezo. Quando Zé Ramalho canta Admirável Gado Novo, eu volto para o teatro da escola que retratava a vida dos boias-frias, do trabalhador sem nenhum benefício e que, infelizmente, continua tendo o mínimo. As histórias dos meus pais trabalhando desde crianças na roça, apanhando, sem médico, sem dentista, sem absorvente, sem comida digna, nunca saíram da minha cabeça.
Desculpa. Não dá pra mim.
Eu vi mais violência do que deveria na infância. Minha realidade não me permite acreditar que feminicídio não existe ou que a Lei Maria da Penha seja algum tipo de privilégio. Meu padrasto ameaçou colocar fogo na nossa casa e atirou na minha mãe na nossa frente. Eu tinha sete anos.
Desculpa. Não dá pra mim.
Meu pai morreu na pandemia, enquanto eu via o presidente fazendo piada e rindo daquele momento que, para tantas famílias, era de medo, doença e morte. E recentemente ouvi um deputado federal de direita questionando dados e evidências produzidos pela ciência simplesmente para sustentar que o seu político de estimação estava certo.
Desculpa. Não dá pra mim.
Eu fui católica da Renovação Carismática na juventude e conheci um Cristo que ama e acolhe. Um Cristo que não me ensinou a excluir minorias. Eu tenho empatia. Ensino isso aos meus filhos. Ensino que eles precisam se colocar no lugar do outro, respeitar quem é e quem pensa diferente. Eu não suportaria que eles fossem agressivos com qualquer pessoa. E que, sendo homens, não respeitassem a comunidade LGBT. Sou celebrante de casamentos. Celebro também as histórias de amor de casais homossexuais.
Eu não conseguiria olhar para uma menina de 11 ou 12 anos, grávida em consequência de um estupro, e simplesmente ignorar o que ela está vivendo. Isso não significa que eu seja a favor da liberação do aborto. Significa que consigo enxergar a complexidade de uma situação mesmo quando tenho uma posição contrária a ela.
Eu me formei em Jornalismo. Aprendi a desconfiar de certezas fáceis e a compreender a coerência editorial. Procuro me informar por mais de um veículo de comunicação e tento, constantemente, sair da bolha do algoritmo. Eu não concordo com a continuidade do governo que temos. Estou cansada dos escândalos, do que acontece no STF e de tantas coisas que considero erradas. Mas também não acredito em salvador da pátria. Sei que do outro lado existem escândalos, medo, contradições e poucas propostas.
Desculpa. Não dá pra mim.
Eu vivo numa família de direita. Entendo o posicionamento e o descontentamento de cada um deles. Eu me batizei evangélica. Vou ao culto todos os domingos com a minha família. Louvo a Deus. Leio muito mais a Bíblia hoje. Mas consigo enxergar hipocrisia e discursos velados dentro da própria igreja.
Desculpa. Não dá pra mim.
Ensino meus filhos a terem pensamento crítico. Ensino que sempre existirão influências e que eles precisam aprender a interpretar o mundo, não apenas repetir aquilo que alguém disse. Aqui em casa, eu e meu marido pensamos diferente em muitas coisas. E tudo bem. Todo mundo lava a louça. Todo mundo tira o lixo. Somos três homens e uma mulher. E sim, às vezes eu ainda preciso lembrá-los dos meus direitos.
A minha vida é cheia de contradições.
Defendo a família, mas não acredito que família tenha um único formato.
Tenho fé, mas não desliguei meu cérebro.
Acredito em Deus, mas não acredito que todo discurso feito em nome de Deus seja automaticamente correto.
Tenho convicções, mas não quero transformar minhas convicções em licença para desumanizar quem pensa diferente.
Desculpa. Não dá pra mim...